A máquina midiática de Jorginho Mello e o projeto neoliberal catarinense
Por Miro Wagner
O governador Jorginho Mello vem preparando um palanque caríssimo para tentar a reeleição. Para isso, criou ao redor de si uma máquina de mídia que ajuda a construir uma imagem positiva do governo e um ideal de Santa Catarina.
Desde o início do mandato Jorginho investiu consideravelmente em propaganda, e agora em 2026, aprovou um aumento de 136% em relação ao primeiro ano de mandato nas verbas para publicidade. Em comparação, Carlos Moisés, o governador anterior, gastou R$172,2 milhões na área em seus 4 anos de mandato. Jorginho, só em 2025, distribuiu R$163,5 milhões para agências de publicidade, influenciadores, empresas de outdoors e, principalmente, veículos de comunicação espalhados por todo o estado e país. O governador já gastou R$444 milhões em publicidade durante o mandato, quase meio bilhão de reais.
A mídia hegemônica catarinense não difere muito do restante do Brasil. Os grupos Globo, SBT e Record (RIC) são os principais veículos de comunicação no estado e operam pelas suas filiadas – NSC, SCC e NDTV respectivamente. Só a NSC recebeu R$16 milhões em 2024 e R$26 milhões em 2025. Além dos canais de TV, a rádio Jovem Pan e sua afiliada local receberam cerca de R$ 1,5 milhões, e os jornais a Gazeta do Povo e o Jornal Razão, dois dos maiores veículos da extrema direita no estado, receberam R$ 390 mil e R$ 264 mil em recursos do governo; todos esses valores foram superiores do que os dos anos anteriores.
Dentre as páginas de influenciadores e comunicadores em geral, está a página Floripa Mil Grau que recebeu R$240 mil em 2025. Números expressivos para uma página de memes. O que não fica dito, é que assim que a página compartilha as propagandas pagas, seus quase um milhão e meio de seguidores se digladiam nos comentários, o que aumenta o engajamento. Além desses investimentos, de acordo com os números da Biblioteca de Anúncios da Meta, Jorginho também investiu cerca de R$160 mil entre 8 de outubro e 5 de janeiro. Isso o colocou entre os 40 maiores anunciantes do Brasil.
De acordo com Amanda Miranda para o ICL, o governador ainda realocou R$13 milhões do Programa de Gestão de Riscos para a propaganda midiática. A Secretaria de Comunicação tirou investimentos de Prevenção e Preparação para a Redução de Riscos e Adaptação Climática e os realocou para rádios e canais de TV. Ao todo, em 2026, foram 39 milhões para ações de prevenção a desastres e catástrofes climáticas. A publicidade recebeu 4 vezes mais, em um estado que vem sofrendo com a crise climática.
Agora, precisamos nos perguntar: Por que o governador gastou tanto com propaganda? Para encontrarmos a resposta precisamos olhar para o que todos esses veículos de comunicação, páginas de memes e influenciadores não mostram.
Isenções Fiscais
Um dos primeiros pontos são as isenções fiscais bilionárias para indústria, setor de importações e agronegócio. De acordo com as informações divulgadas no último Fórum de Defesa do Serviço Público, essas isenções fiscais chegam a quase R$104 bilhões ao agronegócio, indústrias e portos catarinenses. Os valores subiram de 52,78% da Receita Corrente Líquida em 2023, para 56,27% em 2024. Além disso, a Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) de 2026, aprovada em agosto do ano passado na Alesc, garante cerca de R$ 31,1 bilhões em isenções fiscais, foi um salto de 24,5% em relação às isenções de 2025, e a projeção é de que chegue em R$ 36 bilhões até 2028. São valores escandalosos, se aproximando de um terço de toda a arrecadação do Estado de Santa Catarina. Em contrapartida, os investimentos do orçamento no pagamento de professores, médicos, enfermeiros, policiais e demais profissionais que entregam os serviços públicos foram de: 42,6% em 2023, 39,7% em 2024 e depois para 38,8%, em 2025 agora, em 2026, o valor é de 38,8%, o menor patamar desde 2009.
O SINJUSC e as entidades que fazem parte do Fórum Catarinense de Defesa do Serviço Público dizem, “a política de isenções fiscais do Estado de Santa Catarina não tem freio, nem transparência, pois além das projeções sempre subestimarem os valores, o contribuinte não é informado sobre quais empresas são beneficiadas, quanto elas recebem, a quanto tempo elas recebem e qual a contrapartida oferecida para a sociedade catarinense”. A sua empresa foi beneficiada? Deixaram de te cobrar algum imposto? Conhece alguma pequena empresa, que são quem realmente gera a maioria dos empregos, que foi beneficiada? As isenções são secretas para que fiquem apenas entre os amigos do rei.
E, no final do mês de abril, o governador esteve na premiação anual da Associação Catarinense de Supermercados (ACATS) e anunciou que a redução do ICMS de seis produtos da cesta básica, arroz, feijão, farinhas de trigo, milho, mandioca e arroz, será prorrogada até fim de dezembro. Essa medida havia sido adotada com a desculpa de compensar a inflação dos preços dos alimentos e a ACATS participou ativamente das negociações. Assim de primeira, pode até parecer uma política boa para a classe trabalhadora. O fato que toda a mídia comprada não mostra, obviamente, é que o ICMS é um imposto recolhido de toda cadeia de produção e repassado ao consumidor final. Portanto, quem compra o produto só paga menos porque as empresas no decorrer do processo deixaram de recolher o imposto. No fim, o trabalhador paga menos porque as empresas foram isentadas e não porque houve uma melhora no seu poder de compra.
Um outro ponto precisa ser lembrado é que essa medida passou com unanimidade na Alesc. Os deputados de esquerda não foram contra, muito porque eles não são capazes de propor nada melhor para o trabalhador catarinense. Isso demonstra como a posição dos partidos de esquerda na Alesc é recuada, uma vez que isenções fiscais para o agro e para empresas é uma prática também no âmbito federal.
Estrada Boa?
Além das isenções fiscais, não podemos deixar de mencionar os projetos que foram o carro chefe do governo Jorginho. Como o programa Estrada Boa, lançado em 2023, que supostamente buscava recuperar e revitalizar a malha viária de Santa Catarina. Segundo informações do próprio governo do estado, foram mais de R$ 5 bilhões investidos no projeto. Mas tem um porém, esses investimentos, na verdade, foram repasses para a empresa privada mineira Ethos Engenharia de Infraestrutura S/A, empresa responsável pela maioria expressiva dos contratos. E já no ano passado o Tribunal de Contas do Estado (TCE-SC) mandou suspender um contrato para manutenção de quase R$150 milhões.
Depois de coletar material na SC-350, rodovia que liga o Meio-Oeste ao Oeste do estado, o TCE emitiu um relatório que demonstra várias irregularidades no revestimento asfáltico, falta de fiscalização e descumprimento contratual. Esse contrato, agora suspenso, havia sido firmado pela Secretaria de Infraestrutura e Mobilidade e pela empresa. Seria um repasse de R$120 milhões, mas depois aumentou para R$149 milhões. A Secretaria de Infraestrutura do Estado foi notificada e disse que já “havia identificado os problemas apresentados no relatório em maio” e que estaria “executando diligências à empresa contratada para que refaça os serviços sem custo adicional ao Estado”, mas também disse que os serviços só serão refeitos depois de novembro. Depois das eleições obviamente.
O relatório ainda aponta que a execução do contrato era fiscalizada por apenas um engenheiro, sem apoio técnico de equipes de laboratórios e/ou topografia, e também não tinha uma equipe da secretaria ou qualquer consultoria contratada para auxiliá-lo. Além disso, todos os controles de qualidade ficaram a cargo da empresa Ethos e que deveria fazer imagens de todas as intervenções no pavimento, e até serviços de roçada e drenagem, o que foi feito de forma insuficiente de acordo com o relatório. Por fim, mesmo depois dessas denúncias contra a empresa, ela vem ganhando repasses na casa dos milhões por todo o país.
Universidade nada Gratuita
Também não podemos deixar passar o Universidade Gratuita (UG). Um projeto oportunista que salvou o sistema Acafe, e concedeu bolsas de estudos para acadêmicos milionários.
No Ensino Superior, as instituições privadas dominam não só Santa Catarina, mas o país todo. Segundo o Mapa do Ensino Superior no Brasil, as instituições privadas compõem 87,6% do ensino superior brasileiro. Em SC, o número é parecido. Aqui a rede de ensino superior privada detém 86,7%. Nesse setor, há uma disputa que vinha sendo vencida pelas instituições de ensino à distância há alguns anos. Em 2022, a educação à distância em Santa Catarina teve um aumento de 15,8% em relação ao ano anterior, enquanto a modalidade presencial caiu 4,2% naquele ano. Então, Jorginho Mello cria o Universidade Gratuita para garantir um repasse bilionário apenas para o sistema Acafe.
É evidente que o UG colocou muitos trabalhadores e trabalhadoras nas universidades, mas ao mesmo tempo, eliminou outras modalidades de bolsas e os critérios restringiram o acesso ao programa, que são bem abrangentes quanto à faixa econômica, alunos milionários que o digam, mas não muito se você não for de Santa Catarina. Sem falar nas tentativas de barrar as cotas nas universidades do estado. Na prática, Jorginho Mello comprou vagas em universidades privadas que cobram mensalidades exorbitantes e não investiu na ampliação de vagas nas universidades públicas. O UG não tem nada de universalização do ensino para o povo trabalhador, mas sim financiar a Acafe com dinheiro público na disputa pelo domínio do ensino superior em SC.
Além de tudo, nem foi um programa tão bem sucedido assim. O programa anterior, o UniEdu, auxiliou cerca de 67 mil estudantes em 2022, enquanto o Universidade Gratuita em 2023 gerou pouco mais da metade disso, 35 mil. A projeção era de que ao final seriam 89 mil vagas agora em 2026, mas esse projeto não é conhecido por sua transparência. E depois de tudo, esses trabalhadores e trabalhadoras que realizaram o sonho de um curso superior (majoritariamente noturno depois de um dia todo de trabalho), deverão trabalhar de graça para o estado na lógica de “retorno à comunidade”. Por fim, sabe-se lá como todos esses recém graduados conseguiram se inserir no mercado de trabalho num estado que gera apenas subempregos.
Repasses para hospitais privados e filantrópicos
O governador também se vangloria de que foram realizadas mais de um milhão e quinhentas mil cirurgias em Santa Catarina. E ele mesmo falou com orgulho recentemente que “inovou” na Saúde, pois criou a Tabela Catarinense, que aumentou em até 12x a tabela do SUS. Vejam o cinismo, a tabela do SUS é responsável pela padronização dos procedimentos médicos e também pela precificação dos procedimentos para que os repasses da União, que já não são muitos por conta do arcabouço fiscal, sejam feitos de forma mais assertiva, e inclusive sigam as normas de mercado. Ou seja, sabendo que grande parte dos hospitais em Santa Catarina são privados, quando o governador diz que aumentou 12x da tabela SUS, ele está falando abertamente em sabatinas que superfaturou os valores dos procedimentos.
Santa Catarina foi o estado que mais credenciou hospitais privados para o SUS nos últimos anos. Cerca de 65 a 70% dos atendimentos do SUS em Santa Catarina são realizados em hospitais privados. O Projeto de Valorização dos Hospitais repassou R$336 milhões em 2022, R$ 479 milhões em 2023 e para 2024 a projeção era de R$ 650,2 milhões para procedimentos cirúrgicos, ambulatoriais, atendimentos e exames laboratoriais. Mais uma vez, não existe investimento em saúde pública universal, mas sim o repasse de dinheiro público para hospitais privados e filantrópicos (privados também), permitindo que essas instituições realizem procedimentos e atendimentos que podem ser trocados por créditos para abatimento de impostos federais.
Normalmente nenhum dos veículos de comunicação faz críticas severas à gestão de Jorginho. Com esses investimentos Jorginho não apenas garante que nenhuma crítica mais incisiva seja feita, como também constrói uma imagem de estado próspero e seguro. Mas nos bastidores há todo um trabalho de naturalização de uma visão reacionária que vai se cristalizando cada vez mais na mente dos catarinenses. Jorginho não realocou e investiu esses valores apenas pensando na reeleição, mas também para inflar suas pautas. Por mais de uma vez Jorginho falou em entrevistas sobre anistia para todos os condenados do 8 de janeiro; não hesitou em dizer que SC é um estado branco, e ações como o fim das cotas para as universidades do estado demonstra na prática seu projeto supremacista.
Compromisso de classe
Por isso, não podemos deixar de lembrar a quem o governador serve e quais interesses ele representa. Por mais que os diferentes “homens de confiança” da burguesia catarinense “briguem” na frente das câmeras, todos os Jorginhos, os João Rodrigues, os Merísios, representam os mesmos interesses, e não são os nossos. São os interesses dos Konder/Bornhausen, dos Voigt, donos da Weg, dos Luciano Hang, dos banqueiros e dos grandes proprietários de terras, são esses que eles defendem, os bilionários.
Diferentes estratégias, diferentes propagandas, para diferentes “públicos alvo” nas campanhas eleitorais. Mas o mesmíssimo projeto político: arrancar o couro da classe trabalhadora, extraindo mais-valia que vai encher o bolso dos grandes empresários, enquanto promovem a especulação imobiliária e continuam o sucateamento dos serviços públicos e a destruição do meio ambiente. Tudo ocultado por máquinas de propaganda cada vez mais absurdas e caras. E cada vez mais falsas.
Jorginho Mello não investiu em educação pública, não investiu em saúde básica, nem em infraestrutura ou indústria, ele apenas repassou dinheiro público para que as empresas privadas façam o que deveria ser papel do estado. E não se enganem, não podemos nos deixar cair no discurso de que “pelo menos está fazendo algo”. Santa Catarina infelizmente se tornou a principal vitrine eleitoral do bolsonarismo, e por isso precisa ter sua imagem de prosperidade cantada aos sete ventos. Mais do que funcionar bem, SC precisa parecer um estado modelo.
Foto: Roberto Zacarias/ SECOM/ND
Excelente artigo! É uma vergonha o que esse governador está fazendo com as contas públicas de Santa Catarina!